Odontologia Hospitalar na pandemia: a batalha pela vida

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Denise Abranches tornou-se referência na atuação em UTIs de Covid-19. (Imagem: APCD)
Márcia Rodrigues da Costa, DT Brasil

By Márcia Rodrigues da Costa, DT Brasil

qui. 30 junho 2022

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SÃO PAULO/SP: O papel fundamental da Odontologia Hospitalar durante a pandemia será destaque no CIOSP. Denise Abranches, presidente da Câmara Técnica de Odontologia Hospitalar do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP), vai falar da sua experiência em UTIs de Covid-19, como a do Hospital São Paulo, onde atua há mais de 20 anos.

Denise Abranches teve sua vida e seu trabalho transformados pela pandemia. Em 2021, quando o número de leitos do hospital dobrou em relação a 2020, ela geriu equipes, ajudou a salvar vítimas da Covid-19 e perdeu profissionais que estavam há anos ao seu lado, como a sua assistente, com quem trabalhava havia oito anos.

No Hospital São Paulo, junto com outros Cirurgiões-Dentistas e residentes, o trabalho da especialista ajuda a minimizar ou impedir infecções que agravam ainda mais o quadro da doença, como a pneumonia associada à ventilação (PAV).

Durante a palestra no CIOSP, Abranches contará sua experiência no enfrentamento à pandemia. “Fui a voluntária número um no Brasil da vacina de Oxford fora do Reino Unido e vários países enviaram seus correspondentes para conhecer o que fizemos nas UTIS com Covid”. Segundo ela, a experiência foi uma excelente oportunidade para mostrar o valor que o profissional da Odontologia tem na UTI. “Quando falamos de Coronavírus, de Covid-19, falamos da carga viral presente na boca, e o Cirurgião-Dentista atua na cavidade bucal, onde estão os vírus. Foi o maior desafio que vivemos”.

"O cirurgião-dentista tornou-se o profissional de maior importância em alguns momentos dentro da UTI"
- Denise Abranches

Na Odontologia Hospitalar o cirurgião colabora com a eliminação do foco infeccioso nas UTIS, nas enfermarias, e colabora com os médicos e fisioterapeutas. Em determinados casos a sua atuação até se proporciona a desospitalização. “Um paciente de transplante de medula óssea pode evitar mucosite oral, ele deixa de comer via oral e é alimentado por sonda. Isso requer tempo maior de hospitalização e o impacto da Odontologia Hospitalar no âmbito clinico é muito grande, sobretudo no bem-estar do paciente”.

A atuação do cirurgião-dentista diminui gastos com pacientes em UTI, com custos de medicação e nutrição, colaborando com a área clínica, a gestão hospitalar do SUS e o hospital particular. Todo esse potencial vem fazendo com que a Odontologia Hospitalar seja valorizada e reconhecida. “Temos conhecimento dos vírus, das bactérias, do uso de EPIs e demais equipamentos. O cirurgião-dentista tornou-se o profissional de maior importância em alguns momentos dentro da UTI e atraiu o interesse de outros dentistas atuarem dentro do hospital. “Tem aumentado a procura por cursos na área, mas os dentistas precisam ser habilitados. Ainda não é uma especialização, não temos essa disciplina em graduação, mas espero que em breve tenhamos essa capacitação para que os cirurgiões dentistas possam atuar na UTI. Já temos leis municipais que tornam obrigatório ter equipes multidisciplinares em UTIs”.

O trabalho nas UTIs de Covid precisou estabelecer protocolos de máxima biossegurança para os pacientes entubados, para evitar a disseminação do vírus no ar.  Foram utilizados protocolos de máxima segurança, com a introdução de desparamentação em dois momentos, incluindo a chamada checagem dupla da desparamentação, para evitar que uma profissional contaminasse o outro.Também foram estabelecidos protocolos de higienização bucal com a introdução de um suctor de saliva para produzir a aspiração e diminuir a carga viral na boca.

“O trabalho dos dentistas foi muito desafiador, pois onde tem vírus é na boca. Todos os outros profissionais contavam com o nosso conhecimento sobre a região bucal. Foi um trabalho arriscado, desafiador, inédito, de altíssimo nível para todos nós, que superamos o período com conhecimento e capacidade. Atuamos como uma só equipe para ajudar o paciente a se recuperar”.

O grande desafio foi presenciar as muitas mortes que ocorreram nas UTIs. “O cirurgião-dentista não tem esse hábito de lidar com a morte, e muitos viraram dentistas intensivistas. Presenciei mais de 800 mortes dentro do Hospital São Paulo e fiquei com a saúde mental abalada, que estou tentando reconstruir. Perdi uma auxiliar de Odontologia que atuou comigo por 8 anos e outros 3 dentistas. Todas as residentes foram contaminadas e 6 dentistas da minha equipe foram hospitalizadas. Presenciar esse paciente morrer solitário na UTI mexeu comigo profundamente”.

"Todos os outros profissionais contavam com o nosso conhecimento sobre a região bucal. Foi um trabalho arriscado, desafiador, inédito"

Atualmente ela cuida de pacientes positivos leves, imunizados com as vacinas. “Foi fortemente desafiadora essa experiência de quase 1 ano e oito meses na UTI de segunda a segunda, atuando em 5 UTIS, tentando não colocar outras equipes em risco, espalhar vírus. O paciente mordia o tubo, mastigava a língua, tinha que suturar língua, havia pacientes com outras doenças na boca, extraíamos dentes... A ordem era diminuir o foco infeccioso, e com os protocolos de higiene bucal foi possível diminuir a pneumonia”.

As diretrizes para a Odontologia na pós-pandemia são muito importantes no enfrentamento do vírus, destaca Abranches. Munido da biossegurança, o profissional de Odontologia segue cuidando não só da boca, não só no dente, mas da língua, das glândulas salivares e de todos os componentes da área bucal, porta de entrada para muitas doenças, lembra Abranches, que vai dar detalhes sobre o tema “Odontologia hospitalar na pandemia” na quinta-feira (30), às 15h.

 

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