Search Dental Tribune

Síndrome de Down e hipossalivação: novas descobertas

Um novo estudo demonstrou que a sinalização de cálcio prejudicada pode estar na base da hipossalivação e contribuir para a doença periodontal em indivíduos com síndrome de Down. (Imagem: Krakenimages.com/Adobe Stock)

qua. 5 agosto 2026

guardar

NOVA IORQUE, EUA: A redução do fluxo salivar é uma característica bem reconhecida da síndrome de Down e acredita-se que contribua para a alta prevalência de doença periodontal nesse grupo de pacientes. No entanto, os mecanismos biológicos responsáveis ​​pela hipossalivação permanecem obscuros. Um novo estudo pré-clínico investigou as causas subjacentes, fornecendo novas informações sobre por que a função das glândulas salivares pode estar comprometida na síndrome de Down.

Utilizando um modelo murino bem estabelecido, os pesquisadores confirmaram a redução do fluxo salivar nos ratos e encontraram alterações inflamatórias nas glândulas salivares. Eles relacionaram a redução do fluxo salivar à sinalização de cálcio prejudicada nas células das glândulas salivares, um processo essencial para a secreção de saliva. O defeito, portanto, fornece uma possível explicação biológica para a hipossalivação. Células humanas cultivadas em laboratório, derivadas de um indivíduo com síndrome de Down, também demonstraram sinalização de cálcio reduzida, sugerindo que esse defeito pode se estender além do modelo animal.

Em entrevista ao Dental Tribune International sobre a motivação para o estudo, o autor sênior, Dr. Rodrigo Lacruz, professor de patobiologia molecular na Faculdade de Odontologia da Universidade de Nova York, explicou: “Muitos aspectos da síndrome de Down estão bem documentados na literatura. No entanto, há alguns anos, o Gabinete do Cirurgião-Geral destacou a necessidade de investigar problemas bucais em pessoas com síndrome de Down. Nossa revisão da literatura identificou diversos relatos clínicos indicando que indivíduos com síndrome de Down apresentavam hipossalivação e altos níveis de doença periodontal, que provavelmente estão interligados. Contudo, o mecanismo molecular subjacente à baixa salivação era desconhecido.”

“Nosso grupo de pesquisa já havia investigado a função de canais de cálcio especializados na regulação da secreção salivar no contexto da síndrome de Sjögren e demonstrado que a sinalização do cálcio é importante para a secreção salivar. Portanto, pensamos que pessoas com síndrome de Down também poderiam apresentar comprometimento na sinalização do cálcio, o que poderia levar à hipossalivação e, consequentemente, à periodontite”, continuou o Prof. Lacruz.

Conforme relatado no estudo, as glândulas salivares também apresentaram evidências de disfunção mitocondrial, o que, segundo os autores, pode comprometer ainda mais a secreção salivar. Eles também identificaram aumento da atividade inflamatória nas glândulas salivares e no tecido gengival, o que está de acordo com observações anteriores de que indivíduos com síndrome de Down apresentam maior ativação imunológica.

“Precisamos proceder com cautela para evitar afetar negativamente outros sistemas em pessoas com síndrome de Down.” — Dr. Rodrigo Lacruz

Os ratos também apresentaram alterações significativas nas comunidades microbianas orais e intestinais. Pesquisas anteriores demonstraram alterações no microbioma oral e intestinal em pessoas com síndrome de Down. Nos ratos, as bactérias associadas à produção de succinato — um produto metabólico previamente relacionado à inflamação periodontal — eram mais abundantes, e os níveis sanguíneos de succinato eram substancialmente mais elevados. Em conjunto, esses achados sugerem que a hipossalivação, a disbiose microbiana e o metabolismo alterado podem interagir para impulsionar a progressão da doença periodontal na síndrome de Down.

O estudo também investigou se o medicamento pilocarpina poderia melhorar o fluxo salivar em camundongos. O tratamento melhorou significativamente o fluxo salivar e reduziu um dos dois marcadores inflamatórios gengivais avaliados, sugerindo que essa terapia pode justificar uma investigação mais aprofundada em pessoas com síndrome de Down.

Ao comentar as implicações das descobertas sobre a pilocarpina, o Prof. Lacruz afirmou: “A base genética associada à síndrome de Down diferencia essa população: mais de 300 genes no cromossomo 21 são superexpressos. Esses genes podem afetar direta ou indiretamente o funcionamento de genes localizados em outros cromossomos. A pilocarpina pode, portanto, ter efeitos indesejados em genes ou vias moleculares que podem não ser afetados em indivíduos com síndrome de Sjögren, por exemplo. Por isso, estamos investigando outras opções também. Precisamos proceder com cautela para evitar afetar negativamente outros sistemas em pessoas com síndrome de Down.”

Embora esses achados sejam baseados em modelos pré-clínicos, eles fornecem uma possível explicação biológica para a hipossalivação na síndrome de Down. Para os profissionais da odontologia, o trabalho reforça a importância do cuidado preventivo proativo, do monitoramento periodontal regular e da avaliação da função salivar em pacientes com síndrome de Down. Os resultados também destacam potenciais estratégias terapêuticas futuras voltadas para a melhoria da função das glândulas salivares, em vez de simplesmente controlar suas consequências.

O estudo, intitulado  “Dysregulated calcium signaling underlies hyposalivation and microbial dysbiosis in Down syndrome”, foi publicado online em 1 de julho de 2026 na Cell Reports , antes de ser incluído em uma edição impressa.

To post a reply please login or register
advertisement
advertisement